Marinha Grande

Uma vitória da população <br>e dos trabalhadores

Miguel Inácio e Jorge Cabral
Doze anos de falsas promessas e de uma gestão medíocre conduziram o concelho da Marinha Grande à estagnação e interromperam um ciclo de desenvolvimento que vinha sendo concretizado pela CDU. Por mais obras de fachada que possam ter concretizado, o PS não conseguiu esconder uma realidade insofismável, que foi ter gerido o município na defesa dos interesses de alguns e não do interesse geral. Entretanto, no dia 9 de Outubro, os marinhenses mudaram a sério. Votaram numa equipa e num projecto, a CDU, que irá colocar de novo o concelho nos caminhos de um desenvolvimento integrado e sustentável, gerador da melhoria da qualidade de vida.

O futuro é da esquerda, o futuro é o socialismo

Segundos depois de as assembleias de voto terem encerrado, eram agora 19 horas da tarde, de imediato, os diversos órgãos de comunicação social começaram a «bombardear» os telespectadores e os radiouvintes, mais interessados, com as projecções dos principais resultados eleitorais.
«A CDU recuperou terreno no mapa político nacional. Ao reconquistar Barreiro, Marinha Grande, Sesimbra, Alcochete, Vidigueira e Barrancos – e conquistar Peniche, pela primeira vez, os comunistas aumentaram as presidências de Câmara – de 28 em 2001 passaram a deter 32». Esta era a notícia que milhares de candidatos, activistas e militantes do PCP e da JCP, do PEV, da ID e independentes, esperavam ansiosamente.
Para muitos este foi também um dia de trabalho. No entanto, o cansaço não os impediu de saber um pouco mais, o resultado da sua freguesia, do seu concelho, do seu distrito, do seu Partido.
Na terra do vidro não foi diferente. Centenas de pessoas, quando souberam que a CDU tinha reconquistado a Câmara Municipal da Marinha Grande, após 12 anos de uma gestão ruinosa por parte do PS, dirigiram-se ao Centro de Trabalho do PCP, junto aos Paços do Concelho, para comemorar aquela vitória.
«Foi de facto um dia festivo para as gentes trabalhadoras, para as pessoas do concelho», recordou João Barros Duarte, cabeça de lista e, agora, presidente da autarquia pela CDU, contada uma pequena, mas explicativa, história: «Aqui ao lado, na altura, decorria uma festa da igreja. Regra geral estas pessoas não vivem com muita intensidade estas coisas. No entanto, quando a rádio anunciou que a CDU havia ganho na Marinha Grande, as senhoras e o próprio padre entraram na sede e deram júbilo ao seu entusiasmo».
Com aquele brilho nos olhos, Saul Fragata, responsável pelo PCP na Marinha Grande e membro do Comité Central, destacou o facto de, naquele dia, ter visto «malta» que já não via há anos. «Houve realmente uma explosão de alegria, ao ponto de vermos gente que pensávamos ter perdido», afirmou o responsável do PCP, dando conta de uma caravana que percorreu todo o concelho. «As pessoas saíam à rua para nos dar os parabéns, até os candidatos do PSD nos vieram cumprimentar. Isto denota que havia uma certa expectativa e uma certa vontade que nós ganhássemos», frisou.

Doze anos de estagnação

Mas o que é certo, e não se pode escamotear, é que o PS esteve 12 anos à frente dos destinos desta autarquia. Segundo João Barros Duarte e Saul Fragata, em entrevista ao Avante!, esta gestão ficou marcada pelo autismo e distanciamento face aos problemas da população.
«O PS escolheu, na sua actuação, obras de fachada para “encher o olho”, obras bonitas, mas que não melhoraram a qualidade de vida das populações», denunciou o actual presidente da autarquia, recordando que «o alargamento das Zonas Industriais da Marinha Grande e Vieira de Leiria», «a criação e dinamização do concelho para o desenvolvimento económico», «a construção das variantes Nascente e Poente e à Albergaria», «a remodelação das acessibilidades aos lugares do concelho», «o fecho da malha do sistema de saneamento em todo o concelho», «a construção do Parque de Campismo de Vieira na Leiria», «a renovação e requalificação dos centros tradicionais», «as novas centralidades nos lugares», «o Mercado Municipal», «a construção do Depósito de Água no Alto dos Picotes», «a construção da Estação de Tratamento de Águas», «a remodelação do Parque do Engenho para instalação do Museu das Flores», «a construção do Complexo de Piscinas Municipais e Pavilhão Multiusos» e «a construção de um parque coberto de desportos radicais», foram algumas das promessas não concretizadas.
Por outro lado, continuou, encareceram a água, a electricidade e o saneamento. «Nós, CDU, éramos, aqui no distrito, e a nível nacional, no ranking que se poderia estabelecer, a autarquia que fornecia estes serviços mais baratos. Agora, passámos a ser aquela com os custos mais caros, tudo isto devido à política de direita seguida pelo PS», disse João Barros Duarte.
Saul Fragata acrescentou «a ausência de políticas que promovessem o desenvolvimento económico e a criação de emprego», denunciou «o favorecimento de interesses de alguns e o não respeito pelos critérios impostos pelo PDM», e «a falta de uma política de cultura e de juventude».
«Depois, as populações estavam habituadas aos vereadores da CDU. Eram atendidos no café, à porta, a caminho, não saíam da Câmara sem serem atendidos. Com o PS, as pessoas levavam anos a serem recebidas. Entretanto, começaram-se a acumular tensões. As reuniões públicas chegaram a ser guerras contra eles, respondiam mal às pessoas, insultavam-nas, iam-se embora, eram autênticas “touradas”», descreveu o autarca do PCP.

Defender o interesse colectivo

Sendo que o Executivo da CDU ainda não tomou posse, João Barros Duarte, interrogado pelo Avante, afirmou que a primeira medida a ser concretizada será moralizar e humanizar os Serviços de Atendimento Público, reimplementando uma cultura de respeito pelos munícipes e seus direitos.
«Vamos mudar toda aquela estrutura de atendimento aos munícipes e fazer reuniões, de imediato, com os funcionários, que vamos destacar para aqueles serviços, no sentido que o que é importante é o munícipe. Depois, vamos reunir com os trabalhadores da autarquia, aprofundar e saber aquilo que eles fazem e uma grande parte aquilo que não fazem, porque o PS não soube aproveitá-los. Pô-los ali, por várias razões, muitas das quais têm a ver com um certo clientelismo», referiu, sublinhando que estas pessoas «precisam de ser postas a trabalhar, misturados com aqueles que têm experiência, para aprofundar os seus conhecimentos e enriquecerem o seu currículo».
Porque o futuro se constrói no presente e a Marinha Grande não pode perder mais tempo, a CDU, para os próximos quatro anos, promete ainda recuperar a situação financeira da autarquia, aplicar um programa de apoio ao desenvolvimento económico e à criação de emprego com direitos, uma política urbanística e de ordenamento do território, que defenda o interesse colectivo, que promova e valorize um ambiente urbano equilibrado, e trabalhar para a melhoria da qualidade de vida social, cultural e ambiental dos municípios, em todas as freguesias do concelho.
No entanto, Saul Fragata manifestou algumas reservas face à gestão despesista do anterior executivo. «Estou muito preocupado com as finanças do município, porque falta de ideias e de projectos não há», reconheceu o comunista, preocupado, de igual forma, com os cortes anunciados pelo Poder Central, «como o PIDAC de 2006 já evidencia, e, portanto, podemos estar na eminência de ter montes de ideias, projectos, vontade e dinâmica, e estar-mos estrangulados financeiramente».

Transformar a sociedade

Com a conclusão das eleições autárquicas, onde, nas listas da CDU, por exemplo, 60 por cento dos candidatos eram independentes, Raul Fragata fincou que agora é tempo de reforçar o PCP. «No plano dos independentes e da renovação das listas, demos uma grande passo nestas eleições. Estas pessoas sentem que o PCP não é nenhum papão, mas sim um Partido aberto a todos aqueles que o queiram integrar com vista à transformação da sociedade», disse, referindo ainda que «muitos destes independentes têm já uma grande disciplina partidária, com um espirito e empenhamento igual ao dos restantes camaradas. Quando falam do PCP, não dizem “vocês”, mas sim “o Partido”».
«Esta relação, para nós, foi riquíssima. Aliás, abre-nos um vastíssimo campo de trabalho. Houve uma forte mobilização, um sentido de unidade, de rumar todos para o mesmo lado», continuou, concluindo: «Podia-mos não ganhar as eleições, no entanto, ganhámos o Partido e a confiança de que vale a pena lutar com as pessoas, para as pessoas».
Com grande confiança no futuro, Saul Fragata, metalúrgico de profissão, ironizou o seu discurso dizendo que, também na Marinha Grande, «os profetas da desgraça, uma vez mais, meteram e continuam a meter a viola no saco». «Já, por mil vezes, nos deram por mortos e enterrados. Mas parece que mil vezes tiveram que levar connosco», disse, aproveitando o momento para informar que para o próximo ano, em 2006, os comunistas da Marinha Grande vão realizar uma Assembleia de Organização, «onde iremos apresentar, os novos militantes e dirigentes do PCP».
«Tem que haver maior mobilização e militância. Contamos com um conjunto de quadros que estão sempre prontos a ser mobilizados, no entanto, tem que ser alargado e para isso temos que criar condições para um maior número de reuniões, envolver mais as pessoas, pô-las a participar, fazendo transparecer que eles fazem parte da solução para a resolução dos problemas».
Por seu lado, João Barros Duarte, transmitindo uma saudação de confiança aos leitores do Avante!, sublinhou que «vale a pela lutar». «Os resultados que obtivemos são uma consequência de um trabalho que envolve um grande universo, alargado ao trabalho de outros camaradas, noutras paragens, noutros sítios, nomeadamente na intervenção pública do nosso secretário-geral, Jerónimo de Sousa, que teve uma importância significativa nos resultados alcançados, que não são apenas os nossos, e que tiveram uma certa repercussão não só no distrito como a nível nacional», disse, convencido «que estes resultados deram um grande alento ao nosso Partido e aos nossos militantes para desenvolverem um trabalho maior, mais frutuoso, com mais convicção, de que o futuro é da esquerda, o futuro é o socialismo».

CDU reforçou-se no distrito de Leiria

Nas últimas eleições autárquicas, a CDU alcançou uma grande vitória no distrito de Leiria. Conseguiu recuperar a Câmara Municipal da Marinha Grande, em cuja Junta de Freguesia obteve maioria absoluta, e venceu pela primeira vez em Peniche, conquistando a Junta de Freguesia de São Pedro. Reforçou também a maioria absoluta na Freguesia de Serra D’El-Rei e passou a ter maioria absoluta na Freguesia da Ajuda.
Significativa foi também a eleição de um vereador na Câmara Municipal do Bombarral, o que não acontecia há 20 anos, reforçando também as votações na Freguesia de Roliça e Carvalhal.
No concelho de Leiria, a CDU recuperou o deputado municipal perdido nas últimas eleições autárquicas de 2001, verificando-se uma subida generalizada no distrito, particularmente em Pombal, onde para a Assembleia a Municipal se verificou uma assinalável subida de votos.
No distrito, a CDU teve mais 900 votos do que em 2001, detém o mesmo número de câmaras que o PS, que foi o grande derrotado. A CDU foi a única força política que ganhou câmaras (2), o PSD perdeu uma e ganhou uma outra, enquanto que o PS perdeu três e ganhou uma.
O PCP e a CDU são claramente os grandes vencedores destas eleições a nível nacional, com maior subida de votos, em percentagem e a maior subida de câmaras municipais, reforçando o seu papel de grande força nacional, indispensável para a construção de uma alternativa democrática em Portugal.
«O PCP, já mil vezes morto e enterrado, prova que está vivo e bem vivo, reforçando-se e rejuvenescendo-se, pronto para os combates do presente e para contribuir para a construção de um futuro melhor», afirmam, em nota de imprensa, os comunistas do distrito de Leiria, dirigindo «fraternais saudações e o nosso reconhecimento» pela confiança dos votantes e simpatizantes do PCP e da CDU. «Iremos retribuir com trabalho, honestidade e competência», prometem.


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«Estamos em melhores condições<br> de afirmar o nosso projecto»

Passadas as eleições autárquicas e cerca de um ano depois do 17.º Congresso do Partido, o Avante! foi falar com Francisco Lopes, da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central, para medir o pulso à organização partidária e às medidas para o seu reforço, aprovadas no Congresso de Almada. Para o dirigente do PCP, o Partido está mais forte, mais influente e é cada vez mais decisivo para a luta dos trabalhadores e das populações. Luta esta que cresce e que é factor indispensável para a transformação da sociedade.